Amar: Verbo Intransitivo de Mário de Andrade


Escrito por Laura Aidar

Mário de Andrade, escritor paulistano, publicou seu primeiro romance intitulado Amar, Verbo Intransitivo.

O livro de 1927, que retrata o modernismo, narra a história de Elza, uma alemã de 35 anos que foi contratada como governanta para ensinar o filho adolescente sobre a sexualidade.

Análise da obra

O Retorno de Elza

Souza Costa, pai de uma família burguesa de São Paulo, contratou uma alemã com o objetivo de iniciar seu filho em questões relacionadas à sexualidade, com o intuito de mantê-lo longe das mulheres fora do controle familiar.

Portanto, Elza é contratada como governanta da casa. Além de seu trabalho específico, ela também executa as funções habituais de uma governanta.

A Fräulein é tratada com respeito pela família, e ela dá aulas de alemão e música para as crianças. Ela se envolve profundamente na rotina da casa, e ao mesmo tempo, conquista o coração de Carlos. Ao longo da história, a família vai sendo apresentada de forma cotidiana.

Conflitos Familiares

Com o passar do tempo, Carlos e Fräulein tornam-se cada vez mais próximos, o que não passa despercebido para Dona Laura, a mãe da família.

Souza Costa nunca revelou a sua esposa a verdadeira razão para a visita da alemã. Isso desencadeou uma disputa entre Fräulein, Dona Laura e o marido. A princípio, Fräulein considerou partir, mas, após uma breve conversa com o Sr. Souza Costa, decidiu ficar.

O Encantamento de Carlos

Com o consentimento de todos, Fräulein passa a seduzir Carlos. Ela o instrui sobre amor e relacionamento usando sua própria teoria. Seu objetivo é preparar Carlos para a vida sexual. Por meio de seus ensinamentos, ela começa a cumprir sua missão.

O intensivo relacionamento entre Fräulein e seus alunos faz parte dos seus planos de ensino.

O Fim

O fim da lição foi marcado por um desligamento repentino entre os dois.

Souza Costa finge pegar os dois em flagrante, dando início à separação de Carlos e Fräulein. Após a triste despedida, Carlos entra numa fase de sofrimento, mas consegue superar o primeiro amor, transformando-o em um homem.

Examinando o Processo de Análise

Transgressão no Modernismo

Mário de Andrade foi um dos principais artistas modernistas no Brasil, com o livro Amar, Verbo Intransitivo, escrito entre 1923 e 1924, sendo publicado pouco depois da Semana de Arte Moderna, que havia estabelecido os fundamentos e princípios do modernismo.

No romance de Mário de Andrade, "Amar", a 1ª fase do modernismo brasileiro é marcada por transgressões tanto na forma quanto no conteúdo. Isso se reflete inclusive no título da obra, pois utilizar o verbo "amar" como transitivo é inovador.

Nesta obra, a trama tem como foco uma família abastada e tradicional de São Paulo. Para guiar seu filho adolescente sobre assuntos relacionados ao sexo, eles contratam uma governanta alemã. Naquela época, esse tópico era inaceitável, e muitos pais recorriam a prostitutas para suas crianças terem iniciação sexual.

A Beleza da Obra

O romance apresenta inovações na forma. O autor tem várias conversas com o leitor, explicando detalhes sobre as personagens, como a aparência de Elza, e até discutindo questões sobre o enredo.

No livro de Mário de Andrade, uma característica marcante é a presença de termos populares e de origem indígena. Esta peculiaridade se torna mais evidente na rapsódia Macunaíma, obra que apresenta o maior número de palavras dessa origem em toda a obra do escritor.

Em seu posfácio para o livro "Amar, Verbo Intransitivo", Mário de Andrade escreveu: "

A língua que usei. Veio escutar melodia nova. Ser melodia nova não quer dizer feia. Carece primeiro a gente se acostumar. Procurei me afeiçoar ao meu falar e agora já estou acostumado a tê-la escrito gosto muito e nada me fere o ouvido já esquecido da toada lusitana. Não quis criar língua nenhuma. Apenas pretendi usar os materiais que a minha terra me dava.

Explorando o Ambiente Urbano

A família da obra de Mário de Andrade é retratada como moderna, pois possui um veículo para passear por suas propriedades. O romance tem como local principal São Paulo, mais precisamente a Avenida Higienópolis. No entanto, a história se expande também para outras cidades do interior do Estado. O carro é o símbolo que simboliza essa modernidade.

A cidade de São Paulo e seu interior são locais presentes no romance, assim como o eixo Rio-São Paulo. Devido à doença de sua filha, a família viaja para o Rio de Janeiro em busca de mais calor. Na Cidade Maravilhosa, o equilíbrio entre cidade e campo se reflete no passeio de carro pelos bosques da Tijuca.

A década de 20 foi marcada pelo eixo Rio-São Paulo, considerado o mais moderno do Brasil. Em seu romance, Mário de Andrade narra uma viagem de trem, cujo trajeto é embalado por momentos de constrangimento protagonizados por uma rica família paulista.

"O automóvel em disparada rolou pelas ladeiras, se lançou nos abismos a pique sobre o mar"

A Automobilística Aventura nas Ladeiras e Abismos do Mar

A máquina adquiriu um lugar destacado na perspectiva dos idealizadores brasileiros da primeira geração modernista.

No romance Amar, Verbo Intransitivo, a máquina surge no contexto urbano, bem como na interligação entre a cidade e o campo. O automóvel e o trem não são apenas meios de transporte, mas também símbolos da modernidade.

Onde o Brasileiro vem de

Na obra de Mário de Andrade, havia um esforço para compreender o que faz do brasileiro, um brasileiro. Esta tentativa de entender a diversidade de raças e culturas que compõem o Brasil, é uma tarefa árdua. A origem do brasileiro e a busca por um sentimento de identidade nacional foram abordados através de sua obra.

No seu primeiro livro, Mário de Andrade trata frequentemente do tema das raças. Ele analisa e descreve os brasileiros a partir da visão da alemã Elza, que faz comparações entre o latino e o germânico. Ao longo da narrativa, outras etnias são introduzidas.

"O brasileiro misturado não carece mais de criar teogonias transandinas, nem imagina descender de um jabuti notável..."

Não Há Mais Necessidade de Criar Mitos Transandinos para o Brasileiro Misturado, Nem Acreditar em Descendência de um Notável Jabuti

No Brasil, a diversidade étnica é grande, já que é formado por diversas culturas, entre elas, índios, negros, brasileiros de ascendência portuguesa, alemães, noruegueses e japoneses. Todos eles vieram de lugares diferentes para o nosso país, contribuindo para a formação da sua identidade.

Mário de Andrade apresenta, com discrição, a sua teoria sobre a formação do povo brasileiro. Esta teoria é explorada extensivamente em Macunaíma, seu romance mais famoso.

A Personagem de Carlos e Freud

O romance de Mário de Andrade gira em torno de Carlos e de sua iniciação sexual. Utilizando-se das teorias psicanalíticas freudianas, o autor retrata a mudança que o protagonista sofre a partir daquela experiência.

O caráter de Carlos tem um grande papel na moldagem da relação dele com a sua família durante a passagem da adolescência para a vida adulta. Além disso, essa transição envolve outras relações.

Carlos é marcado pela influência de Elza como sua tutora de iniciação sexual. Além das ideias de Freud, Mário de Andrade também usou as doutrinas neovitalistas, que afirmam que os acontecimentos vitais são resultado de reações químicas e físicas dentro do organismo.

“O sincretismo é a mistura entre o antigo e o moderno”. Segundo Mário de Andrade, o sincretismo é a fusão entre o antigo e o contemporâneo.

O fenômeno biológico provocando a individualidade psicológica de Carlos é a própria essência do livro

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Laura Aidar
Escrito por Laura Aidar

É arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Possui licenciatura em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e formação em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design.