Análise do Filme Bacurau


Escrito por Rebeca Fuks

O filme Bacurau, dirigido pelos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é uma aventura cheia de ação e ciência-ficção.

Em 2019, foi lançada uma narrativa sobre uma comunidade rural no sertão nordestino que enfrenta problemas como falta de água e ausência de políticas públicas.

Curiosamente, um dia essa cidade desapareceu do mapa, deixando seus habitantes sem acesso à Internet.

O filme que foi lançado em 2020 teve uma recepção muito positiva no momento de sua estreia, e foi aclamado pela crítica e pelo público. Até mesmo o ex-presidente dos Estados Unidos, Baracck Obama, listou o filme como um dos melhores de 2020. Se você está interessado em saber mais sobre ele, não perca a oportunidade!

Atenção! O conteúdo deste artigo pode conter spoilers! Aviso: este artigo pode conter informações que revelam detalhes importantes da trama.

Avaliação do filme

Os diretores buscaram inspiração nas produções de faroeste e no cinema europeu.

Apesar de mostrar as desigualdades nacionais, o filme é uma fiel representação da realidade brasileira, com a participação de pessoas da região onde foi rodado. Isso foi fundamental para destacar a força da resistência popular, que é um dos principais temas da história.

Há algum tempo, a história se passa de forma imprecisa. Contudo, mesmo que sete no futuro, ela ainda mantém um forte vínculo com os acontecimentos atuais e do passado.

Assim, podemos afirmar que o filme funciona como uma metáfora da situação brasileira.

Cenas de Caixões na Estrada

No início da história, vemos Teresa viajando em um caminhão-pipa por estradas mal conservadas.

Ao percorrer a estrada, caixões são atropelados pelo caminhão, indicando a atmosfera ameaçadora que nos espera na pequena cidade de Bacurau.

Funeral de Dona Carmelita

enterro Dona Carmelita Bacurau

Chegando ao local, nos deparamo-nos com as honras fúnebres à Dona Carmelita, encarnada por Lia de Itamaracá. Uma senhora de cor, de grande idade, que representou de forma significativa para a comunidade.

Carmelita é um grande exemplo de destaque feminino e de matriarcado no lugar onde vive. Através dela, é possível observar a construção de uma grande família, composta por pessoas com perfis diversos que retratam a diversidade do povo brasileiro.

O Nome de Bacurau

O vilarejo fictício de Bacurau é batizado com o nome de uma ave encontrada com frequência no cerrado brasileiro: a ave noturna. Esta espécie hábita o Brasil e atrai a atenção dos observadores de aves devido à sua coloração incomum.

No filme, uma moradora é inquirida por um casal de turistas que mostra desprezo pelo povo local. Ela fornece algumas informações que são posteriormente reveladas.

pássaro bacurau

O povo de Bacurau tem muitas semelhanças com o pássaro da região, notado por ser muito atento aos seus arredores. Assim como o animal, eles são vigilantes e têm características muito específicas.

Oportunismo do Prefeito

Tony Jr. foi eleito prefeito da cidade, mas não parece interessado em promover ações sociais ou obras de infraestrutura para a comunidade. Seu enfoque parece ser apenas se aproveitar do povo durante a campanha eleitoral, a fim de se reeleger.

Tony Jr. é claramente um exemplo de desprezo pela educação. Uma cena que demonstra isso é quando ele descarrega um caminhão repleto de livros, que se espalham pelo chão e são danificados.

Ele também toma posse de uma prostituta mediante a violência de gênero e sexual, um triste refletor da realidade brasileira.

Um Casal Formado por Brasileiros e Norte-Americanos

O ator alemão Udo Kier interpreta Michel, um americano perverso em Bacurau

Um casal de motoqueiros foi visto no povoado, sugerindo que são turistas. Vindos do Sudeste e Sul do Brasil, eles eram arrogantes com os habitantes do Nordeste, sugerindo sua superioridade.

Eles estão presentes na região para implementar planos de eliminação da comunidade, por parte dos americanos que vieram de outras localidades.

É possível estabelecer um paralelo entre caso específico apresentado e a situação de maneira geral no Brasil, onde as elites desdenham o povo e se correlacionam com interesses estrangeiros.

O Cangaço Queer de Lunga

Lunga é um personagem icônico do longa-metragem. O seu arco narrativo coloca questões relevantes sobre identidade de gênero e força de vontade para sobreviver.

O ator Silvero Pereira interpretando Lunga

O personagem, um fugitivo procurado pela polícia, aparenta características tanto femininas quanto masculinas. A presença dele no vilarejo fez com que a população se unisse com maior força para resistir aos ataques à que seriam submetidos.

Lunga, uma figura que une o cangaço e a transsexualidade, simboliza o anseio por mudanças profundas na sociedade.

A Poderosa Domingas: A Força da Mulher Nordestina

A Dra. Domingas é médica de Bacurau, prestando assistência às pessoas, mas sofrendo com o vício do álcool. Apesar disso, ela dedica-se a ajudar os moradores da cidade com seus problemas de saúde.

sônia braga em bacurau

A atriz Sônia Braga foi escolhida pela segunda vez para trabalhar com Kleber Mendonça Filho, desta vez interpretando um personagem cuja força e determinação representam a mulher nordestina em uma situação de extrema dificuldade.

Visita ao Museu e Escola de Bacurau

O museu da cidade desempenha um papel significativo na história de Bacurau.

A população aconselha o casal de turistas a visitar o museu. Quando lá chegam, descobrem que ele contém uma grande quantidade de fotografias e objetos que mostram que o povoado foi parte integral do universo do cangaço e que teve uma longa história de lutas e resistência.

museu da bacurau

O local foi selecionado pela população como um abrigo diante dos ataques dos americanos. Isso transmite que a cultura e a memória são fundamentais para a trajetória de um povo.

É importante destacar a ligação possível entre o passado de Bacurau e as lutas de resistência do povo nordestino, como as revoltas de Canudos, Conjuração Baiana e Quilombo dos Palmares.

Os moradores da cidade buscam abrigo tanto no museu quanto na escola. Enquanto os "gringos" andam a esmo em seu jogo perverso na esperança de encontrar vítimas, eles não percebem que, no fim, serão destruídos.

Fascinantes Fatos sobre Bacurau

O longa metragem, vencedor do Prêmio do Júri no 72º Festival de Cannes, é resultado de uma co-produção entre o Brasil e a França. As filmagens ocorreram em 2018 na região de Seridó, que compreende o Rio Grande do Norte e a Paraíba, ambos localizados no sertão nordestino.

Em 2016, o filme Aquarius de Kleber Mendonça Filho foi exibido no Festival de Cannes. Nessa ocasião, o elenco e o diretor mostraram seu apoio à então presidenta Dilma Rousseff, que sofria um processo de impeachment naquele momento.

Havia expectativa de que, com Bacurau, se repetisse o mesmo episódio do festival de 2019. Porém, o filme foi apresentado sem incidentes, pois segundo os diretores, a própria narrativa já servia como forma de denúncia.

O roteiro desta história foi escrito há mais de dez anos, em 2009. Esta é uma informação curiosa.

Grandes obras de Kleber Mendonça Filho

Kleber Mendonça Filho é um cineasta de renome nacional, com diversas produções notáveis em sua carreira. Juliano Dornelles, o outro diretor de "Bacurau", também foi partícipe de algumas dessas obras.

kleber mendoonça filho

Abaixo está uma lista cronológica das obras mais notáveis de Kleber:

  • Vinil Verde (2005) - curta-metragem
  • Eletrodoméstica (2005) - curta-metragem
  • Noite de Sexta, Manhã de Sábado (2007) - curta-metragem
  • Crítico (2008) - documentário
  • Recife Frio (2009) - curta-metragem
  • O Som ao Redor (2012) - longa-metragem
  • Aquarius (2016) - longa-metragem
  • Bacurau (2019) - longa-metragem

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Rebeca Fuks
Escrito por Rebeca Fuks

É graduada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), possui mestrado em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutorado em Estudos de Cultura pelas Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).