Racionais MC's - Músicas da Vida Loka I e II


Escrito por Sónia Cunha

As músicas “Vida Loka, Parte I” e “Vida Loka, Parte II” são do grupo brasileiro Racionais MC's. Elas foram lançadas pela primeira vez no álbum "Nada como um Dia após o Outro Dia" em 2002. Posteriormente, reapareceram no álbum e DVD de sucessos ao vivo "1000 Trutas, 1000 Tretas" em 2008.

As experiências dos jovens desfavorecidos que recorrem ao crime como meio de sobrevivência podem ser examinadas de forma isolada e também como um conjunto.

Vida Loca retrata com precisão as diferentes faces de um modo de vida arriscado e ao mesmo tempo sedutor para quem busca escapar da pobreza. Este é o cenário real vivido por muitos brasileiros em condições de extrema vulnerabilidade.

Examinando as Músicas Vida Loka, Parte I e II

A Vida Loka: Parte 1

A música de Mano Brown e Abraão retrata uma conversa entre dois amigos: um preso e outro solto. Ambos expressam seus sentimentos sobre suas atuais situações.

Brown liga para seu companheiro encarcerado e conta sobre o episódio de violência mais recente. Ele começa a canção relatando que uma mulher teve a intenção de causar ciúme no marido que, por sua vez, busca vingança. Ambos os homens se dizem firmes, mas desabafam sobre a dificuldade de viver dentro e fora do sistema prisional brasileiro.

Abraão lamentou profundamente não ter estado lá na hora da morte de seu pai. Enquanto mantinha um celular na cadeia, ele falava sobre o ocorrido.

meu pai morreu e nem deixaram eu ir no enterro do meu coroa não, irmão.

Mantendo uma postura otimista, ele anuncia que logo estará de volta; seja por meio de sua libertação ou de sua fuga: "Logo mais eu tô aí na quebrada com vocês"

Ao ligar para relatar suas desventuras, o companheiro deixou claro que a liberdade continua sendo muito difícil e perigosa.

na rua também não tá fácil não, morô?

Apesar dos perigos da vida em sociedade, onde há muita ganância e inveja, "uns juntando inimigo, outros juntando dinheiro", ainda assim segue-se em frente. "Sempre tem um corre a mais pra fazer", expressão que significa ter algo para fazer, na gíria costuma-se associar à prática de crimes como o roubo ou o tráfico.

Declarando sua lealdade e irmandade, eles expressam sua consciência de que podem acabar indo parar na cadeia. "Nós aí qualquer coisa lado a lado, nós até o fim" representa o compromisso deles de permanecerem juntos em qualquer cenário, seja em tempos bons ou ruins.

O sujeito lírico, na voz de Mano Brown, enfatiza a importância da fé e da proteção divina, mostrando a crença em Deus como a única esperança diante do caos.

Fé em Deus que ele é justo!

Ei, irmão, nunca se esqueça

Na guarda, guerreiro, levanta a cabeça, truta

Onde estiver, seja lá como for

Tenha fé, porque até no lixão nasce flor

Ore por nós pastor, lembra da gente

Abraão fala como se estivesse motivando e encorajando a si mesmo, mas também aos que o ouvem a manterem sua força e orgulho. Apesar da sua crença em Deus, ele recomenda que se fique atento e na guarda, o que significa um estado de alerta constante. Esta expressão também sugere que é preciso lutar para manter essa posição de defesa.

Há motivo para esperança, pois até nas circunstâncias mais difíceis, é possível obter sucesso: não é o origem do indivíduo que determina seu destino.

Os integrantes do Racionais MC's vieram de Capão Redondo, um lugar pouco favorecido da zona sul de São Paulo, mas conseguiram superar todas as dificuldades e alcançar a fama com seu trabalho na música.

O eu lírico pede à Igreja, por meio da figura do "pastor", que se lembre dele e de seus companheiros. Ele pede para que rezem por eles. A seguir, o eu lírico expressa a sua vulnerabilidade, confessando que tem dúvidas sobre o seu valor e temerosa do futuro que seu destino trará.

Eu me sinto às vezes meio pá, inseguro

Que nem um vira-lata, sem fé no futuro

Vem alguém lá, quem é quem, quem será meu bom

Dá meu brinquedo de furar moletom!

A fragilidade dá lugar à agressividade assim que alguém se aproxima: o "brinquedo de furar moletom" é um objeto cortante e o sujeito assume uma postura de proteção.

Em um mundo onde existem ameaças externas, é necessário ter cautela com pessoas desconhecidas. Não é aconselhável permitir que se aproximem, pois a deslealdade e a traição podem estar à espreita.

Porque a confiança é uma mulher ingrata

Que te beija e te abraça, te rouba e te mata

A necessidade de se defender é clara, contudo violência não é a única resposta. A agressão é apenas uma resposta aos ataques, mesmo aqueles que parecem inofensivos. Portanto, se uma mosca ameaçar nos incomodar, existem outras maneiras de lidar com a situação sem recorrer à violência.

Brown narra novamente a história que contou inicialmente. Ele acrescenta que o marido ciumento tinha enviado dois capangas para sua casa, que chegaram perguntando por ele e ameaçando seus familiares.

E já pensou, doido, e se eu tô com o meu filho

No sofá, de vacilo, desarmado, era aquilo

Sem culpa e sem chance, nem pra abrir a boca

Ia nessa sem saber, (pro cê vêr), Vida Loka!

O episódio evidencia que a vida é frágil e suscetível a perigos, o que leva a preocupação com a segurança da família.

Ao examinar a situação em que estamos, destacamos o orgulho, a vaidade e a ganância como principais responsáveis pelos conflitos e rivalidades.

A inveja existe e a cada 10, 5 é na maldade

Na parte final de Vida Loka, parte I, algumas questões importantes aparecem. Estas questões são aprofundadas na segunda parte. Fica evidente que o sujeito se vê obrigado a permanecer em uma postura de guerrilha, mesmo que profundamente deseje a paz.

Mas se é pra resolver, se envolver, vai meu nome, eu vô

Fazer o que se cadeia é pra homem?

Malandrão eu? Não, ninguém é bobo

Se quer guerra, terá, se quer paz, quero em dobro

Ele explica seu modo de pensar e conduta. Se algo ameaça sua honra e dignidade, ele se envolverá na briga, mesmo que isso o leve à prisão. No entanto, ele prefere seguir um caminho pacífico, mostrando que está disposto a enfrentar qualquer consequência.

Um por um, Deus por nós, tô aqui de passagem

Vida loka, eu não tenho dom pra vítima

Em meio à violência, onde cada um luta para manter a própria vida, é necessário ter fé na proteção e direção divinas. Não se lamente por sua situação, resista, faça o que for preciso para sobreviver, mas consciente de que sua vida é passageira. Esta é, talvez, a definição de "vida loka".

A música realça a necessidade de cuidarmos uns dos outros, ressaltando o papel fundamental do coletivo. Ela deixa claro que amizades verdadeiras duram para sempre: "no paraíso ou no dia do juízo".

Mesmo com as incertezas e perigos que podem surgir em relacionamentos, os companheiros encerram a música reafirmando a amizade que os une.

A Vida Loka Continua: Parte II

Na segunda parte do álbum, Mano Brown permanece como o letrista principal, tendo a colaboração de Cascão na intro. A faixa traz consigo uma celebrativa de mais um ano de vida. O sujeito lírico dá graças por estar com seus amigos: "Graças a Deus a gente tá com saúde".

Vamos brindar o dia de hoje

Que o amanhã só pertence a Deus, a vida é loka

Inspirado pela filosofia "carpe diem", procuro celebrar e aproveitar cada dia como se fosse o último, pois não há como prever o que o futuro nos reserva. A incerteza e os perigos ao meu redor me ensinam a apreciar cada momento.

Tudo, tudo, tudo vai, tudo é fase irmão

Logo mais vamo arrebentar no mundão

Mano Brown encoraja aqueles que estão ao seu redor, dizendo que todas as dificuldades enfrentadas são temporárias e que o sucesso está próximo. Sua mensagem traz motivação e esperança para aqueles que o escutam.

Nos versos seguintes, trata-se de uma lista de bens materiais que costuma ser associada à riqueza: cordões de ouro, relógios caros e champagne. Estes são alguns dos símbolos que estarão presentes no seu futuro.

A prioridade principal é acabar com a falta, a pobreza e o sofrimento contínuos.

É só questão de tempo, o fim do sofrimento

Para alcançar sucesso na vida, é preciso adotar uma postura defensiva. Expressando sua necessidade de estar sempre atento e pronto para reagir a qualquer situação adversa, a pressão impossibilita que o indivíduo relaxe, mesmo durante o sono.

Eu durmo pronto pra guerra

E eu não era assim, eu tenho ódio

E sei o que é mau pra mim

Fazer o que se é assim?

O sujeito sofre devido às consequências e sequelas da violência e do perigo iminente. O mal que lhe aflige a alma é sentido como algo inevitável, para que consiga sobreviver. Embora o ódio o corroa por dentro, o eu lírico entende que não há outra opção senão aceitar este cenário.

Vida loka cabulosa

O cheiro é de pólvora

E eu prefiro rosas

E eu que, e eu que

Sempre quis um lugar

Gramado e limpo, assim, verde como o mar

Cercas brancas, uma seringueira com balança

Disbicando pipa, cercado de criança

Nestas estrofes, o contraste entre o que o sujeito experimenta e o que ele sonha é evidente. O ambiente é invadido pelo "cheiro de pólvora" de tiros, no entanto, ele deseja a paz, representada pelas rosas.

"Não tente me convencer que não vou vencer. Meu destino é ser feliz". Ele lamenta a violência presente nos ambientes metropolitanos desfavorecidos, onde cada metro quadrado contém um coração despedaçado. Seu desejo é viver em harmonia entre a tranquilidade e a segurança da natureza, longe do caos de São Paulo. Mesmo que ainda esteja distante desse sonho, mantém a fé de que terá um futuro próspero: "Não me diga que não vou conseguir. Meu destino é ser feliz".

O que tiver que ser

Será meu

Tá escrito nas estrelas

Vai reclamar com Deus

Apesar dos desafios que a vida nos oferece, existe sempre uma pontinha de esperança. Ninguém deve cair na inveja ou tentar impedir o crescimento dos outros, pois cada pessoa tem suas próprias capacidades e objetivos a serem alcançados. A felicidade é algo que precisa ser buscado como se fosse seguir uma trilha estreita em meio à uma selva triste.

O sujeito reconhece as dificuldades de sua realidade social, afirmando que a única verdadeira justiça é aquela dada por Deus, pois a dos homens é falha: "O promotor é só um homem / Deus é o juiz". Assim, espera ser perdoado quando se arrepender de seus pecados diante Dele.

Oh, aos 45 do segundo arrependido

Salvo e perdoado

É Dimas, o bandido

São Dimas, conhecido como "o bom ladrão", foi crucificado ao lado de Cristo e recebido no Paraíso após declarar sua fé e confessar seus erros antes de morrer. É possível considerá-lo o "primeiro vida loka da história", pois foi leal a Jesus até o fim, ao contrário do "canalha, fardado" que cuspiu nele.

No trecho, Mano Brown deixa claro que é possível desrespeitar as leis divinas e humanas e ainda assim acreditar que seus atos serão compreendidos e perdoados. Ao dizer "Sei que Deus tá aqui", o jovem expressa sua fé em que suas motivações, mesmo que errôneas, serão justificadas.

Programado pra morrer nós é

Certo é certo, é crer no que der, firmeza?

Não é questão de luxo

Não é questão de cor

É questão que fartura

Alegra o sofredor

Nos versos seguintes, o eu lírico deixa claro que esta não é uma escolha devido ao gosto pessoal. A falta de opções em tais circunstâncias é tanta que o único remédio é acreditar em qualquer solução, mesmo que não seja a desejada, e fazer o que for necessário para sobreviver.

Mais do que simplesmente adquirir objetos de luxo, o dinheiro permite abrir portas para finalmente deixar de lado a luta e o sofrimento. Entretanto, ao mesmo tempo em que o dinheiro apresenta poder de compra e oferece oportunidades, a miséria adiciona tristeza à vida e a consequência disso são limitações ao crescimento e às oportunidades.

Numa sociedade em que contraste e desigualdades sociais são gritantes, os negros sofrem ainda mais desvantagens, vítimas de preconceitos. No Brasil, onde marcas do racismo e do colonialismo ainda estão presentes, a expressão "preto e dinheiro são palavras rivais" se tornou quase uma realidade.

Viver pouco como um rei ou muito, como um Zé?

Às vezes eu acho que todo preto como eu

Só quer um terreno no mato, só seu

Sem luxo, descalço, nadar num riacho

Sem fome, pegando as frutas no cacho

Aí truta, é o que eu acho

Quero também, mas em São Paulo

Deus é uma nota de R$100

Vida Loka!

Em um verso, a questão que divide essas pessoas é refletida: "Viver pouco como um rei ou muito como um Zé?" Mesmo que o crime possa significar quase um destino fatal, é o único modo de enfrentar e livrar-se da pobreza que causa sofrimento.

Brown e seus companheiros sonham com dias de paz, mas a cruel realidade do capitalismo - que mantém os ricos oprimindo os pobres - faz com que essa utopia pareça impossível de se alcançar. A fome, que é consequência direta desse sistema, é tão forte que as questões financeiras têm mais poder que a necessidade humana.

O sujeito, ciente de que seu nascimento o colocou numa situação de discriminação e desvantagem, abraçou a vida como se fosse um "guerreiro de fé". Decidido a conquistar o que precisa para manter sua família, ele está pronto para encarar qualquer desafio que possa surgir.

Porque o guerreiro de fé nunca gela

Não agrada o injusto, e não amarela

O Rei dos reis foi traído e sangrou nessa terra

Mas morrer como um homem é o prêmio da guerra

Brown conclui a música lembrando que Jesus foi traído e morreu por aquilo em que acreditava. Essa morte não deveria ser vista como um castigo, mas como um ato de coragem. Combater e morrer em batalha, no entanto, só traz destruição, portanto, não deve ser considerado um prêmio.

O sujeito está determinado a não se render, aceitando que a vida é efêmera, sendo consciente de que a morte pode acontecer a qualquer momento. Por isso, ele pede ajuda a Dimas, o santo ladrão que tem a sabedoria de compreender os erros alheios e reconhecer o seu arrependimento.

A Dimas, o primeiro

Saúde guerreiro!

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Formado em 1988, o grupo Racionais MC's é composto por Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e pelo DJ KL, originais de Capão Redondo, São Paulo. Desde então eles têm ganhado a admiração do país inteiro, tornando-se líderes do rap brasileiro.

Suas composições evidenciam problemas como a falta de oportunidades, o racismo, a violência policial e a desigualdade na justiça brasileira. Apesar do sucesso alcançado, os membros do Racionais MC's mantêm-se firmes às suas raízes e continuam a dar um profundo testemunho sobre a cruel realidade das comunidades das periferias.

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Sónia Cunha
Escrito por Sónia Cunha

É licenciada em História, variante História da Arte, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (2003) e em Conservação e Restauro pelo Instituto Politécnico de Tomar (2006). Ao longo da carreira profissional, exerceu vários cargos em diferentes áreas, como técnico superior de Conservação e Restauro, assistente a tempo parcial na UPT e professora de História do 3º ciclo e ensino secundário. A arte e as letras sempre foram a sua grande paixão.