Análise e Resumo do Livro O Meu Pé de Laranja Lima


Escrito por Sónia Cunha

O livro infanto-juvenil autobiográfico O meu pé de laranja lima, escrito pelo autor brasileiro José Mauro de Vasconcelos e publicado em 1968, foi um grande sucesso.

A criação teve um impacto impressionante, sendo traduzida para mais de cinquenta línguas e influenciando várias gerações, tanto no Brasil quanto no exterior. Tal sucesso gerou adaptações para o cinema e a televisão, como a novela da Tupi e duas da Band.

A História Resumida

O menino Zezé, de cinco anos, natural de Bangu, periferia do Rio de Janeiro, é o protagonista deste livro, dividido em duas partes. É um garoto comum.

Zezé é conhecido por sua astúcia e independência. É ele quem conta a história de O meu pé de laranja lima, e seu carisma malandro é algo de se admirar. Seu talento e inteligência dão a impressão de que tem o “diabo no corpo”.

A vida do garoto, suas aventuras e as consequências dessas são enfatizadas na primeira parte do livro. Ele é tão perspicaz que acaba, mesmo sem ajuda, aprendendo a ler.

Aprendia descobrindo sozinho e fazendo sozinho, fazia errado e fazendo errado, acabava sempre tomando umas palmadas.

A vida de Zezé tinha estabilidade e conforto, pois ele vivia com sua família numa casa bem equipada. Porém, tudo isso mudou quando o pai perdeu o emprego e a mãe precisou trabalhar na cidade, mais especificamente no Moinho Inglês. Zezé tem cinco irmãos: Glória, Totoca, Lalá, Jandira e Luís.

A família sofreu grandes mudanças devido às circunstâncias na qual se encontram. A mãe, empregada em uma fábrica, passa o dia no trabalho enquanto o pai, desempregado, fica em casa. Por conta desta nova realidade, eles foram forçados a se mudar para um lugar mais modesto. Os Natais fartos e alegres dos anos anteriores foram substituídos por uma mesa vazia e uma árvore de Natal sem presentes.

Zezé é o último filho a escolher entre as árvores do novo quintal. O que ele encontra é um modesto pé de laranja lima, que logo ganha um nome: Minguinho. Uma amizade inesperada se desenvolve a partir daí, surpreendendo a todos.

— Quero saber se Minguinho está bem.

— Que diabo é Minguinho?

— É o meu pé de Laranja Lima.

— Você arranjou um nome que se parece muito com ele. Você é danado para achar as coisas.

Zezé gostava de aprontar; isso significava que ele era frequentemente pego pelos pais ou irmãos e acabava levando uma punição. Em resposta, Zezé procurava consolo em Minguinho, o pé de laranja lima. Em uma ocasião, ele foi castigado tão severamente pela irmã e pelo pai que precisou ficar uma semana inteira sem ir à escola.

Zezé tinha como seu grande amigo além de Minguinho, Manuel Valadares, também conhecido como Portuga. A segunda parte do livro se focará nessa amizade entre eles. Portuga tratava Zezé como se fosse um filho, dando a ele toda a paciência e afeto que não recebia em casa. Essa amizade entre os dois não era compartilhada por todos na família de Zezé.

Infelizmente, o destino foi cruel com o Portuga, que foi atropelado e morreu. Para piorar a situação, Zezé adoecer e a família decidiu cortar o pé de laranja lima, que estava crescendo acima do esperado no quintal.

Após um longo período de desemprego, o pai de Zezé finalmente conseguiu um emprego. Contudo, ainda com seus quase seis anos, Zezé ainda não esqueceu a tragédia.

Já cortaram, Papai, faz mais de uma semana que cortaram o meu pé de Laranja Lima.

A narrativa tem um tom poético alegre e é contada através do olhar suave da criança. O momento culminante da história acontece no final, quando Minguinho oferece sua primeira flor branca.

Eu estava sentado na cama e olhava a vida com uma tristeza de doer.

— Olhe, Zezé. Em suas mãos existia uma florzinha branca.

— A primeira flor de Minguinho. Logo ele vira uma laranjeira adulta e começa a dar laranjas.

Fiquei alisando a flor branquinha entre os dedos. Não choraria mais por qualquer coisa. Muito embora Minguinho estivesse tentando me dizer adeus com aquela flor; ele partia do mundo dos meus sonhos para o mundo da minha realidade e dor.

— Agora vamos tomar um mingauzinho e dar umas voltas pela casa como você fez ontem. Já vem já.

Analisando a História: Uma Abordagem Interpretativa

Apesar de seu pequeno tamanho, O meu pé de laranja lima aborda tópicos fundamentais relacionados à infância. Ao longo das páginas, vemos como problemas dos adultos podem dar margem a desconsideração das crianças, as quais reagem se retirando para um universo particular e repleto de imaginação.

O caráter transformador do afeto é percebido ao ver uma criança negligenciada ser abraçada por alguém que a acolhe. Nesse caso, Portuga sempre está pronto para partilhar seu carinho com Zezé.

Meu pé de laranja lima rapidamente se espalhou para além das fronteiras brasileiras, contendo traduções para 32 idiomas, e sendo publicado em 19 países. Essa rapidez demonstra que as experiências de crianças no subúrbio do Rio de Janeiro se relacionam às vidas de inúmeras crianças espalhadas pelo mundo. Isso evidencia que a negligência infantil é um problema que vai além das fronteiras nacionais, sendo possível perceber que ela tem um caráter universal.

Mesmo sob um panorama de violência física e psicológica por parte dos mais velhos, inclusive dos próprios familiares, Zezé foge deste cenário real para um mundo imaginário de possibilidades felizes. Muitos leitores se identificam com esta busca do menino por liberdade.

O livro fornece uma visão única para o leitor, mostrando-lhe o lado sombrio da infância que às vezes é escondido diante da quantidade de material que idealiza essa fase da vida.

Principais Personagens

Alguns personagens desta narrativa são particularmente notáveis, uma vez que possuem maior relevo.

A História de Zezé

Zezé, um menino curioso e independente de cinco anos, morador de Bangu (subúrbio do Rio de Janeiro), adorava aprontar e apanhar quando era pego.

A Aventura de Totóca

Zezé tem um irmão mais velho que é muito interesseiro, conta mentiras e tem um egoísmo exagerado.

A História de Luís

Zezé tem um irmão caçula que é o seu grande orgulho. Seu nome é Rei Luiz, nome que foi dado pelo próprio Zezé. Ele é muito independente, aventureiro e autônomo, qualidades que enchem de orgulho o seu irmão mais velho.

A Magnífica Glória

A irmã mais velha de Zezé é protetora e dedicada a defendê-lo. Ela está sempre a postos para lutar por seu caçula.

Ser um Pai

Devido à frustração com o desemprego e ao sentimento de desilusão pelo fato de não conseguir sustentar a família, o pai de Zezé acaba sendo impaciente com os filhos e costuma beber com frequência. Quando tenta disciplinar os filhos, ele acaba usando a força e, em seguida, se arrependendo dos seus atos.

A Maternidade

Percebendo a difícil situação financeira da família, a mãe do Zezé decidiu agir prontamente. Desprendida do cuidado dos filhos, ela pegou nas mangas da camisa e partiu para a cidade a fim de conseguir um trabalho que ajudasse a sustentar a casa.

A Língua Portuguesa

Manuel Valadares tratava Zezé como se fosse um filho, fornecendo-lhe muito carinho e atenção, coisas que o garoto não recebia em casa. Ele era rico e tinha um carro de luxo, e sempre dizia a Zezé que este carro pertencia aos dois, pois afinal de contas, amigos dividem.

Uma Aventura com Minguinho

Conhecido como Xururuca, o pé de laranja lima do quintal era o grande amigo e confidente de Zezé.

História do Brasil: Uma Análise do Contexto

Durante as décadas de 1960 e 1970, o Brasil vivia momentos difíceis devido à ditadura militar estabelecida em 1964. Esta cultura repressiva perpetuava o medo e a censura. Ainda assim, a obra de José Mauro de Vasconcelos foi criada sem qualquer tipo de restrição.

A obra evitou questões políticas, permitindo que passasse pelos censores sem problemas. Embora se desconheça se o autor desejava o tema da infância para se aproximar de sua vida ou para evitar a censura, a verdade é que na época havia uma preocupação menor com obras que abordavam as crianças.

açoites, humilhações, trabalho forçado, entre outros tipos de violência. O protagonista de José Mauro sofria diferentes formas de repressão no seu cotidiano: não apenas do governo, mas também de seu pai e irmãos. Essas sanções eram tanto físicas quanto psicológicas, como açoites, humilhações, trabalho forçado e outras formas de violência.

Até bem pouco tempo ninguém me batia. Mas depois descobriram as coisas e vivem dizendo que eu era o cão, que eu era capeta, gato ruço de mau pelo.

Nascido e criado nos anos vinte, José Mauro de Vasconcelos foi capaz de extrair de sua vivência as experiências para escrever o seu livro. Os anos vinte eram de renovação, liberdade e denúncia dos problemas sociais. Contudo, o livro foi publicado no ano 1968, em um cenário totalmente diferente, durante o auge da ditadura militar. Nesse contexto, o país vivia sob forte repressão, conhecido como os anos de chumbo.

Em junho de 1968 foi realizada no Rio de Janeiro A Passeata dos Cem Mil. Três meses depois da publicação do livro O meu pé de laranja lima, o regime político instaurou o AI-5 (Ato Institucional número 5), que proibia qualquer forma de manifestação contrária ao governo. Estes foram anos difíceis para a sociedade brasileira, pois a perseguição aos opositores políticos e as práticas de tortura eram comuns.

A televisão tornou-se uma presença fundamental na cultura de nossa sociedade, entrando nos lares de diferentes classes sociais. O trabalho de José Mauro de Vasconcelos foi amplamente conhecido em grande parte graças às adaptações realizadas para serem exibidas na TV.

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Adaptações Cinematográficas e Televisivas

Encarte do filme O meu pé de laranja lima, lançado em 1970.

Em 1970, Aurélio Teixeira encantou o público ao dirigir a adaptação de O meu pé de laranja lima para o cinema.

Em meados da década de 60, a Tupi estreou sua primeira novela, escrita por Ivani Ribeiro e dirigida por Carlos Zara. Nesta produção, Haroldo Botta viveu o personagem Zezé e Eva Wilma foi a Jandira.

Eva Vilma no papel de Jandira e Haroldo Botta no papel de Zezé.

Dez anos após a primeira adaptação do clássico infanto-juvenil de Ivani Ribeiro, a Rede Bandeirantes exibiu uma nova versão dirigida por Edson Braga. Esta foi ao ar entre 29 de setembro de 1980 e 25 de abril de 1981. O ator escolhido para interpretar o papel principal, o personagem Zezé, foi Alexandre Raymundo.

Após o êxito da primeira edição, a Band decidiu lançar uma nova versão de O meu pé de laranja lima. O primeiro capítulo foi ao ar em 7 de dezembro de 1998. A adaptação contou com a assinatura de Ana Maria Moretszohn, Maria Cláudia Oliveira, Dayse Chaves, Izabel de Oliveira e Vera Villar, tendo Antônio Moura Matos e Henrique Martins como diretores.

Regiane Alves, Rodrigo Lombardi e Fernando Pavão foram os atores escolhidos para interpretar, respectivamente, Lili, Henrique e Raul nesta versão.

Caio Romei interpreta Zezé na adaptação para a TV realizada em 1998.

A Vida e as Obras de José Mauro de Vasconcelos

Nascido no subúrbio carioca de Bangu, no dia 26 de fevereiro de 1920, José Mauro de Vasconcelos começou a sua carreira literária aos 22 anos de idade, com o lançamento de Banana Brava. Apesar de dotado de enorme criatividade e ânimo para efetuar a literatura, teve que trabalhar como garçom, instrutor de boxe e operário para se sustentar.

A vida literária de ____ foi extremamente produtiva, seus livros foram reeditados, traduzidos para o exterior e alguns ganharam adaptação para o audiovisual. O seu maior sucesso, Meu Pé de Laranja Lima, foi publicado em 1968 e foi muito bem recebido tanto pelo público quanto pela crítica.

"Eu trabalho melhor quando estou inspirado". José Mauro afirmou que se sentia mais produtivo quando sua criatividade estava fluindo.

"Quando a história está inteiramente feita na imaginação é que começo a escrever. Só trabalho quando tenho a impressão de que o romance está saindo por todos os poros do corpo. Então vai tudo a jato"

José Mauro dedicou sua vida à escrita e também se destacou como ator, recebendo o Prêmio Saci de Melhor Ator e de Melhor Ator Coadjuvante. Infelizmente, ele faleceu aos 64 anos, no dia 24 de julho de 1984, na cidade de São Paulo.

Retrato de José Mauro de Vasconcelos.

Sónia Cunha
Escrito por Sónia Cunha

É licenciada em História, variante História da Arte, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (2003) e em Conservação e Restauro pelo Instituto Politécnico de Tomar (2006). Ao longo da carreira profissional, exerceu vários cargos em diferentes áreas, como técnico superior de Conservação e Restauro, assistente a tempo parcial na UPT e professora de História do 3º ciclo e ensino secundário. A arte e as letras sempre foram a sua grande paixão.